A Caminhada, o Zika e o Trá-trá-trá

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É notório que a população de São Francisco, município norte-mineiro com aproximadamente 56 mil habitantes, jamais se esqueceu do assassinato do jovem Lourivaldo, funcionário público municipal, ocorrido no mês de setembro de 2015. A brutalidade com que este homicídio ocorreu deixou toda a comunidade são-franciscana estarrecida, em estado de choque. Diversos grupos sociais foram tomados por grande comoção e o resultado final foi uma grande mobilização pela paz nesta cidade ribeirinha, tendo como ponto máximo uma enorme Caminhada pela Paz, realizada em 22 de outubro de 2015.

O evento foi um marco na história recente da cidade. Muita gente se envolveu, escolas se mobilizaram, grupos religiosos apoiaram o movimento, enfim, era perceptível que a morte daquele rapaz uniu grande parte dos são-franciscanos. Mas a impressão que fica hoje é que o que ocorreu naquele momento, uma grande leva de gente se mobilizando em torno de uma causa comum, sem se levar em conta cor, raça, religião ou condição social, parece ter sido algo casual, raro até.

Isso porque daquele triste mês até hoje muitos “assassinatos” continuaram acontecendo e nada tem sido feito. Mortes reais e simbólicas, instantâneas e a longo prazo têm ocorrido em nossa cidade, mas também em centenas de municípios Brasil afora. Em todas, em comum, a indiferença, o desdém, a falta de compromisso coletivo por parte de cada um. Mesmo num assassinato real, como o do Lourivaldo, outras mortes também ocorrem. A morte não é apenas do corpo da vítima, mas das escolas pelas quais os autores daquele crime um dia passaram, tendo falhado em seu maior objetivo que é a educação daqueles jovens; é golpe duro também na esperança em torno daqueles meninos, que talvez só verão ódio, vingança e falta de horizonte em seus horizontes; é morte das igrejas, de padres e pastores, que falharam feio em sua missão de apresentar Deus para a juventude; é morte dos professores, que não se atentaram para o pedido de socorro daqueles que passaram dias e dias em suas salas de aula; é, ainda, a morte de pais e mães que, em meio a tantos desafios, não souberam educar, oferecer aos seus filhos os princípios básicos do respeito, da civilidade e da convivência. Numa morte apenas, portanto, há uma verdadeira chacina.

Atualmente, se quisermos procurar as mortes que nos rodeiam, logo percebemos que não é preciso muito esforço. Elas se encontram em atos terroristas, na negligência do poder público no trato da saúde pública, na corrupção que suga o dinheiro público, na violência costumeira e banal de uns contra outros, na disseminação do Aedes Aegypti pelo país, matando por meio da dengue ou do Zika Vírus. Em todos esses casos, em comum, há a falta de espírito de corpo, de senso coletivo, de uma noção clara e sólida de que todos somos corresponsáveis pela vida em todas as suas formas. Ah se todos tivéssemos essa noção, nossa realidade seria outra.

Tantos problemas nos acometem, nos empurrando para as diferentes mortes deste mundo, e aquilo que poderia ser a nossa maior força contra tudo, a união, isso parece sempre ficar em segundo plano. Exemplos sobre esse cenário não faltam. Em ano eleitoral, o que mais vemos são projetos de partidos, de grupos, e não um projeto de cidade. Não se pensa coletivamente. É sempre um contra o outro. Situação e oposição, num modelo político caduco e ultrapassado, sem contar grande parte da população que vende a dignidade do seu voto em troca de dinheiro, pinga e festa. Outro exemplo é o do combate ao mosquito Aedes Aegypti. Poucos são aqueles que se preocupam em limpar seus quintais, suas sujeiras, quanto mais os ambientes comuns, por onde todos circulam. Lixo na orla do rio São Francisco não nasceu ali. Pneus, latas e uma imensidão de entulhos por toda parte não caminharam sozinhos para se instalarem nos lugares públicos. O mosquito está se proliferando por causa da própria ação e negligência humana. Sempre digo que é temerosa a cena de uma epidemia de Zika Vírus em nossa cidade. Isso porque não temos nem hospital nem médicos suficientes para dar conta de um quadro assustador como o que ela pode causar. Além desses exemplos, também há o das mortes que nos abordam nas dimensões da cultura e da educação.

Morremos todos os dias de demência cultural. Morremos de graves doenças, que nos acometem o cérebro, os ouvidos, a visão. Morremos de Big Brother Brasil, isso mesmo, de BBB, já faz 16 anos; morremos de Faustão, pasmem, desde 1989; de cegueira crônica em tratar como ídolos artistas (artistas?) produzidos para vender, vender, vender, se vender, como Wesley Safadão. Ai ai… Anitta como cantora do ano é de matar, é de morrer, é um assassinato à valiosa Música Popular Brasileira. Diante dessa mortandade mental coletiva, nessa epidemia que tem matado jovens e adultos nos últimos tempos, não é de se estranhar que o Hit do momento é o Trá Trá Trá, numa alusão ao som de uma metralhadora, música (música?) de um grupo denominado As vingadoras. Letra? Nunca precisou. Mas é compreensível, pois, nesses últimos anos, depois do “lê, lê, lê”, do “tchu tcha tchã” e do “bará bará berê”, o “trá trá trá” atual das vingadoras é coisa consequência das mais previsíveis.

Por tudo isso, arrisco que a morte de Lourivaldo não foi um caso isolado neste mundo de morte, nesta cultura de morte. Ela é parte de uma sociedade doentia que cultua o dinheiro e a ostentação (sem trabalhar); que desce até o chão (real e simbolicamente) para mostrar que sabe dançar; que xinga, briga, denuncia no mundo virtual das redes sociais mas é incapaz de valorizar o contato de uma comunidade real (da igreja, das associações, dos grupos culturais, das ONGs); a morte de Lourivaldo foi apenas uma das consequências de uma sociedade que ainda não soube valorizar a educação, os professores, a cultura local, a bênção dos pais, enfim, os jovens que mataram Lourivaldo já estavam, de certa forma, mortos, sem perspectiva, sem valores, sem um projeto de vida. Ah se o ímpeto e a comoção que tomaram a todos que participaram da Caminhada da Paz também estivessem presentes em todos nós no trato de assuntos como o Zika Vírus, a coisa pública, as eleições municipais, a valorização de nossa cultura, isso seria um céu. Talvez, dessa forma, poderíamos começar a curar essa sociedade de morte na qual cada um cuida isoladamente de seus problemas, ficando totalmente indiferente ao que é coletivo. Mas enquanto isso não acontece nessa sociedade acéfala, continuemos assistindo mortes, atos de violência à vida e atentados à cidadania, apenas nos regozijando com nosso “professor” Faustão, um ídolo de apelido “safadão” e ouvindo o hino da sociedade brasileira contemporânea: “Paredão zangado / Grave tá batendo / Médio tá no talo / Corneta tá doendo / Pega a metralhadora / Trá trá trá trá trá / As que comandam vão no Trá trá trá trá”. É triste demais tudo isso. Deus toma conta!!

 

roberto-mendesRoberto Mendes
Graduado em Filosofia pela PUC Minas
Mestre e Doutor em História pela UFU
Professor Titular da Unimontes

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