Nossos três maiores erros em ano eleitoral

O ano de 2016 mal teve início e, por ser ano eleitoral, muitas pessoas já arriscam previsões, apostas e opiniões sobre quem será a próxima pessoa a ocupar os cargos de prefeito e vereadores de São Francisco. Entre nomes antigos e novos, azarões e favoritos, as apostas pululam nas conversas dos diversos grupos sociais, seja nos botequins, salões de beleza, roda de amigos ou mesmo nas redes socais da internet. Na verdade, poucos são os que ficam imunes a arriscar um palpite ou expressar uma opinião sobre algum tema político neste ano. Talvez uma razão para esse fenômeno seja o que Pierre Ansart, filósofo e sociólogo francês, identifica nesses momentos de eleições, ressaltando que é neste tempo que as paixões das pessoas estão mais afloradas. Enfim, é alguém falar no assunto e as apreciações são suscitadas no mesmo momento, nos mais diferentes tons, aos gritos ou com um tom de preocupação e incertezas.

Apesar desse aspecto positivo da democracia, em que as pessoas podem emitir suas opiniões, conversar sobre política de maneira livre e soberana, solidificando a noção constitucional de que todo o poder emana do povo, algumas distorções comprometem o sentido republicano da investidura do poder aos vereadores e prefeito. Isso porque, antes de tudo, são cargos que devem ser exercidos com responsabilidade para o bem da coletividade de um município. A seguir, elenco os três maiores erros que nós, como sociedade civil organizada, cometemos nos anos eleitorais no processo de escolha dos nossos representantes:

ErrosERRO Nº 01 – o particular prevalece sobre o coletivo – Em todo processo eleitoral, o nosso primeiro equívoco já ocorre quando polarizamos a disputa eleitoral, deixando bem claro que a luta passa a ser “partidária”. E aí, quando os lados falam mais alto que o coletivo, também as demandas e os interesses de cada lado prevalecem. Qualquer conversa, então, se torna uma batalha de argumentos, muitos expressos em voz alta, buscando literalmente “calar” o outro que não está com o meu candidato. Assim, no calor das discussões, ouvir propostas, reconhecer qualidades no oponente ou coisa parecida é algo inconcebível, aliás, isso é o que menos importa, já que cada um está embriagado com suas “verdades”, incapaz de enxergar para além de suas cristalizadas convicções. Em momento algum, tanto por parte dos candidatos, dos seus correligionários, seguidos pelos eleitores, é ventilada a possibilidade de todos lutarem conjuntamente pelo bem da cidade, com propostas debatidas coletivamente em busca de soluções para os problemas que afligem a todos, sem exceção.

ErrosERRO nº 02 – PARA VENCER AS ELEIÇÕES, VALE TUDO – Neste ringue eleitoral, a vitória nas urnas parece ser alcançada no grito, no braço, pelo uso do poder em suas diferentes formas. Seja pelo uso do poder econômico pela compra de votos ou por tantas artimanhas baixas e descomprometidas com a ética, no jogo do “vale tudo” tudo vale para desbancar os outros candidatos. Neste sentido, a disputa eleitoral se torna uma carnificina desleal, amoral, antiética, construída num campo em que valores como verdade, justiça e espírito coletivo parecem caducar na busca pelo poder. Outro aspecto que aparece no interior dessa disputa eleitoral é espetáculo. As eleições se tornam um show, algo distante do campo da seriedade. De um lado, os candidatos procuram chamar atenção a todo custo, das mais diferentes e bizarras formas, cantando, dançando, rebolando, fazendo coisas que jamais fariam se não fosse para ganhar os eleitores, afinal, como muitos insistem em parafrasear o palhaço, “pior que tá não fica”. De outro, por sua vez, esses mesmos eleitores, como platéia ávida por “pão e circo”, ficam vislumbrados por festas, pelas rodadas de cerveja ou mesmo por benefícios particulares prometidos no grande comércio eleitoral no momento, onde cidadãos se tornam clientes e quatro anos do seu futuro social são trocados por mesquinharias passageiras.  Tudo isso sem contar com a utilização das mentiras e até da intimidação como recurso para se conquistar o apoio do despreparado cidadão que, mesmo não sabendo o poder que tem numa eleição, bate no peito, ri e zomba a todos ao seu lado quando o seu “representante” corrupto vence as eleições. “Olhaaaa o fuuuumoooo!”, grita aos quatro cantos com orgulho. Coitado, mal sabe ele que o maior “fumo” quem levou foi sua família, seus filhos, seu povo, e em sua ignorância política, vai ter que esperar mais quatro anos para ter clareza do grande erro que cometeu.

ErrosERRO nº 03 – falta de conhecimento – De todos os erros identificados nos períodos eleitorais, talvez um que se sobressaia de modo mais pontual sobre os outros seja a falta de conhecimento tanto por parte dos candidatos quanto dos eleitores. Isso porque, caso ele não existisse, talvez os outros fossem amenizados no meio social. Penso que ambos os lados, eleitores e candidatos, deveriam se preparar melhor para fazer propaganda, ao menos com dignidade, dos nomes que alardeiam por aí. Neste sentido, leitura sobre o que faz um prefeito, quais as obrigações de um vereador, o que esses cargos significam num sistema representativo, seria, no mínimo, tarefa obrigatória para todos os candidatos, sem exceção. Por parte dos eleitores, esse também seria um caminho plausível nesse momento de avaliação das opções que vão aparecendo, sem contar com uma avaliação minuciosa sobre as propostas e o histórico dos candidatos. Quando o eleitor conhece as funções de um prefeito e dos vereadores, quando compreende o sentido da soberania popular no processo eleitoral e, principalmente, quando investe os candidatos de uma responsabilidade social que está muito além do parentesco ou da amizade que se tem com eles, aí sim, a cultura do “toma-lá-dá-cá” e do favor desaparece, o coletivo se sobressai diante dos interesses particulares e até o “vale tudo” da política é minimizado. Do contrário, se o próprio eleitor compactua com a sujeira da politicagem, neste ato também ele mostra seu lado podre e corrupto que ele próprio critica nos políticos. O conhecimento da dinâmica, das leis e normas da política faz o eleitor a entender que um prefeito não pode fazer o que bem entender com o dinheiro público, já que processos podem lhe ocorrer diante da Lei de Responsabilidade Fiscal. Faz também o eleitor compreender que não é o vereador que “faz” o asfalto da sua rua, o posto de saúde do seu bairro, já que são atividades do poder executivo. Penso que o conhecimento como instrumento auxiliador no exercício da cidadania talvez seja o maior antídoto contra a maioria dos problemas antes, durante e depois do processo eleitoral, uma vez que proporcionará ambos os lados, representantes e representados, a firmarem um compromisso em prol de todos. Prefeito é, antes de tudo, um gerente. E como tal, não pode gastar mais do que arrecada; não pode atender um, como se fosse fazendo um favor pessoal, esquecendo-se do outro; precisa colocar em cada setor da “empresa municipal” pessoas capazes de prestar os melhores serviços à comunidade, seja na saúde, na educação, na cultura ou no setor de obras e infra-estrutura, e não preencher esses espaços com pessoas para as quais deve favores firmados no período eleitoral. Ser prefeito é ter sua equipe de trabalho nas mãos, oferecendo condições de trabalho, mas cobrando-lhe resultados em seus setores de ação. Da mesma forma, o vereador precisa, para bem representar a sociedade que o elegeu, ser uma pessoa preparada, que faz e desenvolve projetos de lei; que fiscaliza propositivamente, e de modo constante, as ações do executivo; que, para atender a comunidade não se rebaixa a oferecer-lhe migalhas em forma de agrados pessoais quando não é digno de exercer o cargo que ocupa, afinal, da mesma forma que ocorre no exercício do mandato do prefeito, no seu, o cidadão espera respeito, pois todos os serviços públicos para os quais prefeito e vereadores foram escolhidos para gerir e oferecer à comunidade, são direitos e jamais benfeitoria ou favor por parte dos homens públicos.

Fundamentado em todos esses argumentos, espero que no próximo processo eleitoral saibamos, todos nós, agir com clareza, espírito coletivo e ética, tudo em nome do bem comum para os próximos quatro anos. Do contrário, vamos continuar vivenciando processos eleitorais nos quais o que manda é a compra de votos, a barulheira das carreatas, a bebedeira das rodadas de cerveja, num financiamento político à ignorância política neste grande teatro que se torna o período de campanhas. Eleição é coisa séria e para não cairmos nesses três grandes erros da prevalência do particular sobre o coletivo, do domínio da regra do “vale tudo” e da ignorância política em detrimento de um maior esclarecimento, precisamos todos tratar a coisa pública, a política, como espaço da ética, da seriedade, da solução dos problemas comunitários. Depende de nós!

 

roberto-mendesRoberto Mendes
Graduado em Filosofia pela PUC Minas
Mestre e Doutor em História pela UFU
Professor Titular da Unimontes

Um comentário em “Nossos três maiores erros em ano eleitoral

  • 23/02/2016 a 16:44
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    Acredito que depende de nós votarmos com sinseridade e respeito. Nós que elegemos cada um que esta na câmara ou na poutrona da prefeitura. A ética, a cidadania e o respeito com todos os que elegem um vereador, um prefeito deve estar em primeiro plano em todas as eleições subsequentes.
    Que Deus tenha misericoridia desta cidade de São Francisco, e que cada cidadão acorde para fazer o seu papel que e de cobrar pelos seus representantes.

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